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domingo, 20 de outubro de 2013

OS DESABAFOS

Capítulo IV

Carolina tem um diário desde que aprendeu a escrever, embora não tenha conseguido mantê-lo de forma contínua, pois raramente o escreve. No entanto, no último ano, esse registo foi mais intenso. Tem-lhe servido como uma terapia para ultrapassar as adversidades da sua adolescência. É por isso importante lermos os seus registos e perceber o que pensa e o que sente, dado que a história é sobre ela mesma.

20 de Abril de 2012
Hoje na escola, o Miguel finalmente pediu-me em namoro. Não me importo que seja mais velho, sempre gostei de rapazes mais velhos. São mais maduros, não são como os tolos da minha idade que ainda não sabem o que querem. Passei os intervalos todos com ele e a Cátia chateou-se comigo porque não estive disponível para ela. Isso passa-lhe, também tenho direito a ter tempo para mim.
Quando cheguei a casa a minha mãe já sabia que tenho namorado novo. Estou farta de ser controlada! Parece que tem olhos e ouvidos em todo o lado, os espiões são mais que muitos em toda a cidade, não só na escola. Não percebo porque é que as pessoas não cuidam da vida delas e se dão ao trabalho de andar a controlar as dos outros. Disse-me que não se importa que namore, mas que não me esqueça que estou no 10º ano e que a partir de agora os estudos são o mais importante, que agora a média já conta para a entrada na universidade. Isto é para rir! Agora os estudos são os mais importantes… sempre foram, ou não teria de ser a menina 100%.
Hoje também recebi o teste de matemática. Tive 9! A primeira negativa do meu percurso escolar. Não lha vou mostrar, só lhe ia dar mais motivos para implicar comigo e para se meter entre mim e o Miguel. Hei-de levantar esta nota, é só o resultado de uma semana má antes do teste. É uma parte da matéria mais difícil e por ter andado distraída não consegui acompanhá-la, mas sim, estudarei mais e vou recuperar. O professor mostrou-se apreensivo, preocupado até, quis saber se se passava algo comigo. Descartei-o facilmente, disse-lhe que andei um pouco adoentada e que não consegui estudar muito. Acreditou. Ser a melhor aluna da turma tem destes benefícios, credibilidade junto dos professores. Agora vou ter é de esconder bem este teste. Se a minha mãe o vê, lá se vai o meu descanso.
Infelizmente o jornal sobre a minha vida não é lido exclusivamente pela minha mãe, cá em casa. O Paulo também já sabe das novidades e não deixou passar em branco. Ao jantar decidiu gozar um pouco até me conseguir irritar. Claro que me descontrolei e respondi-lhe mal, mesmo o que ele estava à espera. Fiquei de castigo, nada de computador durante uma semana, pelo menos em casa. Lavei a loiça do jantar e arrumei a cozinha, como costume, e fui para o meu quarto.
Às 10h da noite ouvi-os começar a discutir, quer dizer o Paulo discutia, não ouvi a voz da minha mãe. De qualquer forma estavam trancados no escritório, um dos locais mais afastados do meu quarto, e por isso não consegui ouvir o que diziam. Amanhã descubro. Será que ela descobriu? Não pode ser, se o tivesse descoberto de certeza que não continuaríamos a dormir. Tem de ser outra coisa.”

26 de Abril de 2012
Não tenho muito a dizer. A situação mantém-se. Estou de castigo porque a minha mãe encontrou a justificação de faltas em que falsifiquei a assinatura dela. Só a encontrou porque me arrependi e nunca a cheguei a entregar. Na verdade já a tinha guardado há tanto tempo que tinha acabado por me esquecer dela. Esbofeteou-me esta tarde na cozinha, foi com força, devo dizer que me doeu e que os dedos dela me ficaram marcados na cara, mas doeu-me mais cá dentro. Ao que parece fi-la reviver situações menos boas que viveu com o meu pai, mais uma vez: - Obrigada, grande pai, por me fazeres continuar a pagar pelos teus erros!
Tentei escapulir-me ontem, durante o furo que tive na última hora, para estar com o Miguel. Tínhamos combinado ir para o castelo e a única pessoa a quem contei foi à Cátia, para que me encobrisse no caso de a minha mãe lhe perguntar alguma coisa. Ainda bem que lhe contei! Estávamos quase a chegar ao castelo, quando a Cátia me ligou a avisar que a minha mãe sabia que eu ia para o castelo, que alguém lhe tinha contado, que lhe ligou para confirmar… uma confusão. Plano abortado e começam a chover chamadas da minha mãe, a juntar às cerca de cinco que eu não tinha visto antes de falar com a Cátia. Ao que parece até o Paulo andava à minha procura e já estava a caminho do castelo.
 Ó meu Deus! Estou farta de tanto mirone e de continuar a ser espionada. Até parece que sou alguma celebridade, dessas que vemos na televisão a serem perseguidas por paparazzi’s. Não percebo, sou uma rapariga como qualquer outra da escola, qual o motivo de tal vigilância? Nunca tive problemas com ninguém, nada de relevante na escola, nada de preocupante em casa (até ao episódio de hoje, para a minha mãe, que ficou em alerta máximo) …
Bem acabei a ouvir a minha mãe, ralhou imenso, gritou, censurou a minha atitude e aproveitou para repreender mais uma vez o meu namoro. Não confia no Miguel, diz que não sabe com quem me estou a meter, que ele me esconde um rapaz violento e que se continuar com ele, serei vítima de violência muito em breve. Não consigo acreditar nela, não o Miguel, tão carinhoso… Não percebo esta animosidade latente. A verdade é que o Miguel também não está muito satisfeito com as decisões que a minha mãe tem tomado em relação a nós, que me deixam menos disponível para ele. Mostra-se, por vezes hostil na forma que fala da minha mãe. Não gosto de ouvir falar assim e disse-lho! Pediu desculpa e alterou os seus modos, como posso acreditar que um dia me pudesse bater?

Hoje, como já disse as coisas pioraram cá em casa, o ambiente está pesado e não me sinto bem em lado nenhum. Aquela maldita justificação de faltas acabou com a pouca liberdade que tinha. O normal: – Quando as aulas acabarem vens directa para casa!, passou a: – Sem telemóvel ou computador, sem saídas após a última aula e ai de ti que saiba que faltaste a mais alguma aula ou que baixaste as notas!”

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