Capítulo IV
Carolina tem um diário desde que aprendeu a
escrever, embora não tenha conseguido mantê-lo de forma contínua, pois
raramente o escreve. No entanto, no último ano, esse registo foi mais intenso.
Tem-lhe servido como uma terapia para ultrapassar as adversidades da sua
adolescência. É por isso importante lermos os seus registos e perceber o que
pensa e o que sente, dado que a história é sobre ela mesma.
“20 de
Abril de 2012
Hoje na escola, o Miguel finalmente pediu-me em
namoro. Não me importo que seja mais velho, sempre gostei de rapazes mais
velhos. São mais maduros, não são como os tolos da minha idade que ainda não
sabem o que querem. Passei os intervalos todos com ele e a Cátia chateou-se
comigo porque não estive disponível para ela. Isso passa-lhe, também tenho direito
a ter tempo para mim.
Quando cheguei a casa a minha mãe já sabia que tenho
namorado novo. Estou farta de ser controlada! Parece que tem olhos e ouvidos em
todo o lado, os espiões são mais que muitos em toda a cidade, não só na escola.
Não percebo porque é que as pessoas não cuidam da vida delas e se dão ao
trabalho de andar a controlar as dos outros. Disse-me que não se importa que
namore, mas que não me esqueça que estou no 10º ano e que a partir de agora os
estudos são o mais importante, que agora a média já conta para a entrada na
universidade. Isto é para rir! Agora os estudos são os mais importantes… sempre
foram, ou não teria de ser a menina 100%.
Hoje também recebi o teste de matemática. Tive 9! A
primeira negativa do meu percurso escolar. Não lha vou mostrar, só lhe ia dar
mais motivos para implicar comigo e para se meter entre mim e o Miguel. Hei-de
levantar esta nota, é só o resultado de uma semana má antes do teste. É uma
parte da matéria mais difícil e por ter andado distraída não consegui acompanhá-la,
mas sim, estudarei mais e vou recuperar. O professor mostrou-se apreensivo,
preocupado até, quis saber se se passava algo comigo. Descartei-o facilmente,
disse-lhe que andei um pouco adoentada e que não consegui estudar muito.
Acreditou. Ser a melhor aluna da turma tem destes benefícios, credibilidade
junto dos professores. Agora vou ter é de esconder bem este teste. Se a minha
mãe o vê, lá se vai o meu descanso.
Infelizmente o jornal sobre a minha vida não é lido
exclusivamente pela minha mãe, cá em casa. O Paulo também já sabe das novidades
e não deixou passar em branco. Ao jantar decidiu gozar um pouco até me
conseguir irritar. Claro que me descontrolei e respondi-lhe mal, mesmo o que
ele estava à espera. Fiquei de castigo, nada de computador durante uma semana,
pelo menos em casa. Lavei a loiça do jantar e arrumei a cozinha, como costume,
e fui para o meu quarto.
Às 10h da noite ouvi-os começar a discutir, quer
dizer o Paulo discutia, não ouvi a voz da minha mãe. De qualquer forma estavam
trancados no escritório, um dos locais mais afastados do meu quarto, e por isso
não consegui ouvir o que diziam. Amanhã descubro. Será que ela descobriu? Não
pode ser, se o tivesse descoberto de certeza que não continuaríamos a dormir.
Tem de ser outra coisa.”
“26 de
Abril de 2012
Não tenho muito a dizer. A situação mantém-se. Estou
de castigo porque a minha mãe encontrou a justificação de faltas em que
falsifiquei a assinatura dela. Só a encontrou porque me arrependi e nunca a
cheguei a entregar. Na verdade já a tinha guardado há tanto tempo que tinha
acabado por me esquecer dela. Esbofeteou-me esta tarde na cozinha, foi com
força, devo dizer que me doeu e que os dedos dela me ficaram marcados na cara,
mas doeu-me mais cá dentro. Ao que parece fi-la reviver situações menos boas
que viveu com o meu pai, mais uma vez: - Obrigada, grande pai, por me fazeres
continuar a pagar pelos teus erros!
Tentei escapulir-me ontem, durante o furo que tive
na última hora, para estar com o Miguel. Tínhamos combinado ir para o castelo e
a única pessoa a quem contei foi à Cátia, para que me encobrisse no caso de a
minha mãe lhe perguntar alguma coisa. Ainda bem que lhe contei! Estávamos quase
a chegar ao castelo, quando a Cátia me ligou a avisar que a minha mãe sabia que
eu ia para o castelo, que alguém lhe tinha contado, que lhe ligou para
confirmar… uma confusão. Plano abortado e começam a chover chamadas da minha
mãe, a juntar às cerca de cinco que eu não tinha visto antes de falar com a Cátia.
Ao que parece até o Paulo andava à minha procura e já estava a caminho do
castelo.
Ó meu Deus!
Estou farta de tanto mirone e de continuar a ser espionada. Até parece que sou
alguma celebridade, dessas que vemos na televisão a serem perseguidas por paparazzi’s. Não percebo, sou uma
rapariga como qualquer outra da escola, qual o motivo de tal vigilância? Nunca
tive problemas com ninguém, nada de relevante na escola, nada de preocupante em
casa (até ao episódio de hoje, para a minha mãe, que ficou em alerta máximo) …
Bem acabei a ouvir a minha mãe, ralhou imenso,
gritou, censurou a minha atitude e aproveitou para repreender mais uma vez o
meu namoro. Não confia no Miguel, diz que não sabe com quem me estou a meter,
que ele me esconde um rapaz violento e que se continuar com ele, serei vítima
de violência muito em breve. Não consigo acreditar nela, não o Miguel, tão
carinhoso… Não percebo esta animosidade latente. A verdade é que o Miguel
também não está muito satisfeito com as decisões que a minha mãe tem tomado em
relação a nós, que me deixam menos disponível para ele. Mostra-se, por vezes
hostil na forma que fala da minha mãe. Não gosto de ouvir falar assim e
disse-lho! Pediu desculpa e alterou os seus modos, como posso acreditar que um
dia me pudesse bater?
Hoje, como já disse as coisas pioraram cá em casa, o
ambiente está pesado e não me sinto bem em lado nenhum. Aquela maldita
justificação de faltas acabou com a pouca liberdade que tinha. O normal: – Quando
as aulas acabarem vens directa para casa!, passou a: – Sem telemóvel ou
computador, sem saídas após a última aula e ai de ti que saiba que faltaste a
mais alguma aula ou que baixaste as notas!”